Da formação histórica das elites à necessidade de um planejamento nacional que ultrapasse os governos.
O Brasil não precisa de um projeto de poder que se renove a cada eleição. Precisa de um projeto de nação que sobreviva aos governos, respeite as diferenças e tenha como finalidade o desenvolvimento de seu povo.
Governar não deveria ser um fim em si mesmo, mas um instrumento para melhorar a vida da população. Entretanto, nossa história revela uma dificuldade persistente: transformar a disputa pelo poder em compromissos duradouros com o desenvolvimento nacional.
Discutimos intensamente quem deve governar. Nem sempre discutimos, com a mesma seriedade, para que serve governar.
A formação histórica do poder
A estrutura política e econômica brasileira foi profundamente marcada pela concentração da terra, pela escravidão e pela exploração de recursos naturais. A Independência, em 1822, rompeu os vínculos políticos com Portugal, mas preservou grande parte das estruturas sociais e econômicas coloniais. A abolição, em 1888, não foi acompanhada de uma política abrangente de integração dos antigos escravizados à sociedade e à economia.
A República também não eliminou a concentração do poder. Durante a Primeira República, oligarquias regionais e lideranças locais exerceram influência decisiva sobre a política. O coronelismo, analisado por Victor Nunes Leal, expressava a relação entre poder econômico, dependência social e controle eleitoral.
Raymundo Faoro, ao estudar a formação do Estado brasileiro, destacou a permanência de estruturas patrimonialistas, nas quais os limites entre o público e o privado se tornam pouco definidos.
A partir de 1930, a industrialização e a ampliação da atuação do Estado modificaram a organização econômica e social do país. A criação da Companhia Siderúrgica Nacional, a legislação trabalhista e, posteriormente, a Petrobras integraram um processo de construção de capacidades nacionais.
O crescimento industrial, contudo, não eliminou as desigualdades. Durante o regime militar, a expansão econômica conviveu com concentração de renda, restrições às liberdades políticas e desequilíbrios que contribuíram para a crise da década de 1980.
A história brasileira revela, assim, uma transformação econômica e institucional importante, mas também a permanência de dificuldades na distribuição do poder e das oportunidades.
A redemocratização e uma nova configuração política
A redemocratização, no final da década de 1970 e início dos anos 1980, não representou apenas a transição de um regime autoritário para a democracia. Também abriu espaço para a reorganização da sociedade civil e do sistema partidário.
Nesse contexto surgiu, em fevereiro de 1980, o Partido dos Trabalhadores. Sua formação reuniu lideranças do novo sindicalismo, trabalhadores, intelectuais, movimentos sociais, militantes de diferentes correntes de esquerda e integrantes de comunidades eclesiais de base. As greves do ABC paulista tiveram papel importante nesse processo.
O surgimento do PT introduziu uma característica nova na organização partidária brasileira: a constituição de uma legenda com forte vínculo de origem com movimentos sociais e organizações de trabalhadores, que buscavam ampliar sua participação direta na vida política nacional.
Nas décadas seguintes, o partido ampliou sua presença eleitoral, administrou municípios e estados e chegou à Presidência da República em 2003. Sua trajetória envolveu mudanças programáticas, alianças políticas, participação nas instituições democráticas, realizações administrativas e também controvérsias e crises.
Esse processo integrou uma transformação mais ampla da democracia brasileira: a entrada de novos segmentos sociais na disputa pela representação política e a ampliação do pluralismo partidário.
A Constituição de 1988 consolidou direitos e garantias fundamentais e estabeleceu novas responsabilidades para o Estado. O desafio passou a ser transformar a ampliação da participação política em capacidade de formular e executar políticas públicas consistentes, capazes de produzir resultados ao longo das gerações.
A falta de um projeto nacional de longo prazo
O Brasil teve experiências importantes de planejamento, como o Plano de Metas, no governo Juscelino Kubitschek, e os Planos Nacionais de Desenvolvimento durante o regime militar. Posteriormente, o Plano Plurianual passou a organizar programas e prioridades governamentais em ciclos de quatro anos.
O problema não é, portanto, a ausência absoluta de planos. É a dificuldade de consolidar uma estratégia de Estado, com objetivos nacionais, metas mensuráveis, financiamento, responsabilidades definidas e avaliação permanente, capaz de atravessar diferentes governos.
Educação, infraestrutura, ciência, tecnologia, produtividade e redução das desigualdades exigem continuidade. Não podem ser submetidas exclusivamente às conveniências eleitorais.
Planejar o país significa estabelecer onde queremos chegar, em quanto tempo, com quais recursos e como a sociedade poderá acompanhar os resultados. Significa também reconhecer que políticas de longo prazo precisam de aperfeiçoamento, mas não podem ser abandonadas a cada mudança de governo.
Pesquisa, inovação e agregação de valor
O Brasil possui recursos naturais abundantes, uma agricultura competitiva, importantes reservas minerais e capacidade científica que precisa ser fortalecida. Entretanto, não basta extrair, produzir e exportar grandes volumes de matérias-primas. Precisamos avançar na transformação desses recursos.
Exportar minério de ferro é importante. Desenvolver a produção de aço, máquinas, componentes e tecnologias a partir dele representa outra etapa da cadeia de valor. Exportar grãos é uma vantagem econômica. Produzir alimentos processados, bioprodutos, insumos e tecnologias agrícolas amplia as possibilidades de geração de riqueza.
É nesse contexto que pesquisa e desenvolvimento (P&D) assumem importância estratégica. Universidades, centros de pesquisa, empresas e governo precisam atuar de forma articulada para transformar conhecimento em inovação, produtos competitivos e novos mercados.
Agregar valor às exportações permite diversificar a pauta comercial, fortalecer a indústria, gerar empregos qualificados e ampliar a receita obtida com nossos recursos naturais. Com competitividade e investimentos consistentes, essa transformação pode contribuir significativamente para a balança comercial e para a riqueza nacional.
Não se trata de abandonar a vocação agrícola ou mineral brasileira, mas de utilizá-la como ponto de partida para uma economia mais sofisticada, produtiva e tecnologicamente independente.
Um compromisso acima dos governos
Um projeto nacional precisa reunir compromissos permanentes: educação de qualidade, pesquisa científica, inovação, produtividade, responsabilidade fiscal, redução das desigualdades, infraestrutura e instituições democráticas sólidas.
Isso exige também qualidade na gestão pública. O equilíbrio das contas do Estado é condição para a sustentabilidade das políticas públicas, assim como os investimentos em educação, ciência e infraestrutura são fundamentais para ampliar a capacidade produtiva do país.
Esses objetivos não pertencem a um partido ou a uma ideologia. Podem ser defendidos por diferentes correntes políticas, ainda que existam divergências legítimas sobre os caminhos.
Escrever em favor do Brasil significa reconhecer acertos, apontar erros, questionar privilégios e defender mudanças sem transformar convicções em fidelidade partidária. Significa avaliar governos por suas decisões e resultados, independentemente de sua orientação política.
O desenvolvimento nacional depende da participação de toda a sociedade: empresários comprometidos com a produção, trabalhadores com oportunidades, universidades conectadas aos desafios do país, gestores públicos responsáveis e instituições respeitadas.
Não existe um governante, partido ou grupo social capaz de resolver sozinho problemas construídos ao longo de séculos. O futuro exige planejamento, conhecimento, cooperação e continuidade.
Não podemos continuar discutindo indefinidamente quem tem o direito de governar o Brasil enquanto deixamos de discutir, com a seriedade necessária, para que serve governar o Brasil.
O poder passa. Os governos passam. As eleições passam.
Mas o Brasil permanece. E o futuro de seu povo não pode continuar esperando.