Quando os pilares caem

Família, presença, cuidado e o preço silencioso das transformações sociais

Há uma ideia simples na engenharia: uma estrutura pode permanecer aparentemente sólida mesmo depois de um de seus pilares começar a perder resistência. Durante algum tempo, nada acontece. Mas, quando seus principais pontos de sustentação se enfraquecem, pequenas pressões passam a produzir consequências cada vez maiores.

A metáfora ajuda a compreender algumas transformações ocorridas na família nas últimas décadas.

Quando há filhos, a família deixa de ser apenas uma relação entre adultos. Surge alguém profundamente dependente, que durante muitos anos necessitará de cuidado, presença, proteção, educação, afeto e referências. A partir daí as escolhas dos pais deixam de produzir consequências apenas sobre suas próprias vidas.

Historicamente, a mãe ocupou posição central no cuidado cotidiano dos filhos, sobretudo nos primeiros anos, acolhendo, observando, consolando, ensinando e construindo, pela convivência, uma relação de intimidade e segurança. O pai, por sua vez, exercia predominantemente as funções de prover, proteger, estabelecer referências e também participar do cuidado e da formação.

Essas funções nunca precisaram ser rígidas. Pai e mãe podem compartilhar responsabilidades de diferentes maneiras. O essencial é outro: uma família com filhos precisa organizar-se prioritariamente em torno das necessidades daqueles que ainda não conseguem cuidar de si mesmos.

Foi justamente essa lógica que começou a se modificar.

A sociedade passou a organizar a vida adulta cada vez mais em torno do trabalho, da carreira, da renda e da produtividade. Nesse processo, difundiu-se também a ideia de que a realização da mulher estaria necessariamente associada à sua inserção e ascensão profissional, enquanto o tempo dedicado à maternidade e à formação dos filhos perdeu reconhecimento social.

Considero que aí ocorreu um equívoco importante.

Talvez por isso eu olhe com particular admiração para mães que, especialmente quando têm vários filhos, dedicam uma parte significativa de suas vidas a criá-los. Há algo de profundamente humano nessa entrega cotidiana, muitas vezes cansativa, silenciosa e pouco reconhecida. Não consigo enxergá-la como uma vida menor ou como ausência de realização. Ao contrário. Sinto alegria quando vejo uma família em que cuidar dos filhos não é tratado como aquilo que restou depois do trabalho, mas como algo que possui valor em si mesmo.

Isso não significa estabelecer um único modelo possível de família. A questão, a meu ver, é outra: por que reconhecemos tão facilmente a realização proporcionada por uma carreira e temos tanta dificuldade em atribuir dignidade semelhante à mulher que encontra realização dedicando anos importantes de sua vida à criação dos próprios filhos?

O problema não foi a mulher trabalhar. Foi a sociedade passar a tratar trabalho e carreira como medidas quase obrigatórias de realização pessoal, inclusive durante os anos em que os filhos mais dependem da presença materna, como se dedicar tempo à maternidade significasse, necessariamente, renunciar a uma vida plena.

Uma carreira pode ser construída, interrompida, retomada ou reformulada em diferentes etapas da vida. A infância de um filho, porém, acontece uma única vez. E os anos em que a criança mais necessita da mãe não podem ser recuperados posteriormente com mais renda, melhores escolas ou maior conforto material.

Quando a presença materna diminui significativamente, alguém precisa ocupar esse espaço.

Creches, escolas em tempo integral, cuidadores e atividades extracurriculares passaram a assumir parcelas crescentes do cotidiano infantil. Mais recentemente, celulares, redes sociais, jogos, influenciadores e algoritmos passaram a disputar horas adicionais da vida das crianças.

Esses recursos podem ser necessários e desempenhar funções importantes. O problema começa quando deixam de complementar a família e passam a substituí-la.

Porque criar um filho não significa apenas garantir alimentação, moradia, escola e segurança. É preciso conhecê-lo: perceber quando seu comportamento mudou, saber do que tem medo, ouvir uma história aparentemente sem importância, estar presente quando adoece, corrigir sem humilhar, dizer “não” quando necessário, consolar, abraçar, conversar.

Acompanhar.

É nessa convivência cotidiana que se constroem confiança, pertencimento e segurança emocional. Uma escola pode ensinar. Uma creche pode cuidar. Um profissional pode alimentar e proteger. Mas nenhuma dessas relações substitui aquilo que nasce da convivência entre pais e filhos.

Filhos não precisam apenas ser atendidos. Precisam sentir que são cuidados por quem os ama.

A primeira infância torna essa questão particularmente importante. É nesse período que começam a se formar referências fundamentais de vínculo, segurança emocional, autocontrole, confiança e relacionamento. O desenvolvimento humano prossegue durante toda a vida, mas as primeiras experiências ocupam lugar singular nessa construção.

Paralelamente à redução da presença materna, outra transformação ocorreu: o enfraquecimento da figura paterna.

Era necessário distinguir autoridade de autoritarismo. Mas combater o autoritarismo não deveria significar esvaziar a autoridade responsável.

O pai que provê, protege, cuida, orienta e estabelece limites oferece segurança justamente porque assume responsabilidades. Entretanto, parte da cultura contemporânea passou a representar a figura paterna como incompetente, infantilizada, secundária ou dispensável. Filmes, programas, publicidade e entretenimento ajudaram, em diferentes momentos, a difundir essa imagem.

Nenhuma representação isolada modifica uma sociedade. Símbolos repetidos durante décadas, porém, ajudam a alterar percepções.

Chegamos, assim, a uma combinação preocupante: uma mãe cada vez menos presente no cotidiano dos filhos e um pai progressivamente enfraquecido como referência de responsabilidade, proteção e autoridade.

Quem ocupa o espaço deixado pelos dois?

Cada vez mais, instituições, mercado e tecnologia.

Não é necessário afirmar que todas essas transformações resultaram de um projeto coordenado. Algumas podem ter sido deliberadamente promovidas como mudanças culturais; outras decorreram de transformações econômicas, tecnológicas e sociais; muitas provavelmente produziram consequências não previstas.

Planejadas ou não, porém, as consequências existem.

Uma família pode continuar existindo juridicamente, dividir a mesma residência e preservar seus vínculos formais, mas começar a perder aquilo que verdadeiramente a transforma em família: acolhimento, cuidado, afeição, confiança e a certeza de que existe um lugar ao qual se pertence.

E o problema pode atravessar gerações.

A família transmite uma herança que não aparece nos inventários: a herança relacional.

Cada criança leva para a vida adulta referências sobre como amar, cuidar, demonstrar afeto, estabelecer limites, resolver conflitos e permanecer ao lado de alguém nos momentos difíceis. Quem foi acolhido possui uma referência para acolher. Quem recebeu cuidado conhece o significado de cuidar.

O contrário também pode acontecer. Uma criança que cresceu com pouca presença poderá encontrar dificuldade para estar presente. Quem recebeu pouco afeto pode ter dificuldade para demonstrá-lo. Quem não aprendeu limites pode ter dificuldade para estabelecê-los com seus próprios filhos.

Não se trata de destino inevitável. Pessoas amadurecem, rompem padrões e constroem relações diferentes. Mas aquilo que não foi aprendido naturalmente dentro de casa precisará ser aprendido mais tarde e, nem sempre será.

É assim que uma fragilidade pode se multiplicar de uma geração para outra.

Por isso, talvez seja insuficiente dizer que a família terceirizou a educação dos filhos. O fenômeno é mais profundo: ela pode ter terceirizado parte da própria formação afetiva daqueles que um dia constituirão novas famílias.

Não se trata de idealizar o passado. Famílias antigas também possuíam problemas, conflitos e ausências. Tampouco se trata de afirmar que exista apenas uma maneira legítima de organizar uma família. O ponto é reconhecer que podemos ter avançado extraordinariamente em tecnologia, renda, produtividade e conforto enquanto regredimos em presença, convivência e pertencimento.

Talvez exista aí uma contradição do nosso tempo: valorizamos aquilo que pode ser convertido em renda, registrado em um currículo ou medido por indicadores, mas temos dificuldade para atribuir valor semelhante às horas dedicadas a formar uma criança.

Talvez tenhamos aprendido a medir muito bem aquilo que produz riqueza e muito pouco aquilo que produz pessoas.

Uma sociedade pode terceirizar serviços, tarefas e parte dos cuidados. O que não consegue terceirizar indefinidamente, sem consequências, é a presença de uma mãe, a responsabilidade de um pai, o carinho, o acolhimento, os limites e a formação cotidiana dos próprios filhos.

Os pilares podem mudar de forma.

Mas, quando mãe e pai deixam progressivamente de exercer as funções que sustentam a formação dos filhos, não estamos apenas reorganizando uma casa.

Estamos modificando as referências com que uma geração inteira aprenderá amanhã a amar, cuidar, educar e construir sua própria família.