Gramsci, a Escola de Frankfurt e a Nova Esquerda ajudam a compreender por que valores, linguagem, educação e costumes se tornaram campos centrais da disputa política contemporânea
Durante grande parte do século XIX e das primeiras décadas do século XX, o conflito político inspirado pelo marxismo foi interpretado principalmente como uma disputa econômica. Capital e trabalho, burguesia e proletariado, propriedade dos meios de produção e distribuição da riqueza estavam no centro dessa visão.
A experiência histórica, porém, mostrou que as sociedades capitalistas desenvolvidas não caminhavam necessariamente para a revolução prevista por parte do pensamento marxista. Trabalhadores conquistaram direitos, ampliaram sua participação política e passaram a integrar sociedades de consumo cada vez mais complexas.
É nesse contexto que Antonio Gramsci ocupa posição relevante.
Preso pelo regime fascista italiano, Gramsci desenvolveu nos Cadernos do Cárcere uma interpretação mais ampla do poder. Para ele, a dominação não dependia apenas do controle do Estado ou do uso da força. Dependia também da capacidade de construir consentimento social.
Escola, Igreja, imprensa, intelectuais, associações e demais instituições da sociedade civil participariam da formação daquilo que denominou hegemonia.
A consequência era importante: conquistar o governo poderia não ser suficiente para transformar a sociedade. Seria necessário disputar também os valores, as ideias e a maneira pela qual as pessoas interpretam a realidade.
Da tomada do poder à disputa pela sociedade
Gramsci diferenciava a ação direta sobre o Estado daquilo que chamou de “guerra de posição”: uma transformação gradual realizada dentro da própria sociedade civil.
A disputa política deixava, assim, de ocorrer exclusivamente na fábrica, no Parlamento ou no governo. Passava também pela escola, pela universidade, pela imprensa e pela produção cultural.
Posteriormente, a chamada Escola de Frankfurt atribuiria igualmente grande importância à cultura.
Não se deve, contudo, apresentar Gramsci e os pensadores de Frankfurt como participantes de um programa político previamente coordenado. A relação histórica não foi tão simples. O que existiu foi uma convergência relevante: ambos ampliaram a análise marxista para além da economia.
Entre os principais nomes da Escola de Frankfurt estavam Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse. A chamada Teoria Crítica procurava compreender os mecanismos econômicos, sociais, psicológicos e culturais capazes de produzir e reproduzir relações de poder.
Adorno e Horkheimer estudaram particularmente a cultura de massa. Marcuse voltou sua atenção para a sociedade industrial, o consumo, a sexualidade e os mecanismos sociais de integração e conformismo.
A pergunta, portanto, deixava de ser apenas quem controlava os meios de produção.
Passava a incluir outra:
quem influencia os valores e a maneira pela qual a sociedade interpreta o mundo?
As instituições também passam a ser questionadas
Família, religião, escola e outras instituições tradicionais também entraram nesse campo de análise.
Isso não significa que todos os autores de Frankfurt defendessem simplesmente sua destruição. A questão era compreender como determinadas instituições poderiam contribuir para reproduzir comportamentos, relações de autoridade e valores sociais.
A crítica política, portanto, começava a ultrapassar definitivamente a economia.
Para modificar uma sociedade, tornava-se necessário discutir também seus valores, sua linguagem, seus costumes e suas referências.
É nesse ponto que a disputa política passa a alcançar espaços anteriormente considerados predominantemente privados ou culturais.
A Nova Esquerda amplia os sujeitos do conflito
Nas décadas de 1950 e 1960 surge, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, aquilo que ficou conhecido como Nova Esquerda.
As questões econômicas não desapareceram, mas o proletariado industrial deixou de ser considerado o único sujeito da transformação social.
Herbert Marcuse tornou-se uma referência importante nesse ambiente. Estudantes, minorias e grupos socialmente marginalizados passaram a ocupar espaço crescente no debate político.
A antiga divisão entre capital e trabalho passou, então, a conviver com novos conflitos relacionados a raça, gênero, sexualidade, identidade, discriminação e reconhecimento.
Movimentos feministas, raciais, estudantis e posteriormente ligados à orientação sexual e à identidade passaram a apresentar demandas específicas.
Seria simplificador atribuir todos esses movimentos diretamente a Gramsci ou à Escola de Frankfurt. Cada um possui origens históricas próprias. Mas é possível identificar uma mudança intelectual importante: a política havia deixado de se organizar exclusivamente em torno das relações econômicas.
A cultura torna-se campo de disputa
Essa transformação ajuda a compreender muitos debates contemporâneos.
A disputa política passa a acontecer também na educação, na mídia, nas artes, na religião, na linguagem e nos costumes.
A escola deixa de ser discutida apenas pela qualidade do ensino e passa a ser observada também pelos valores que transmite. A produção cultural adquire significado político. Palavras passam a carregar posicionamentos. Comportamentos privados entram no debate público.
Até a interpretação da história torna-se objeto de disputa.
Não é necessário imaginar a existência de um comando central para reconhecer esse processo. Mudanças culturais raramente funcionam dessa maneira. Ideias surgem, circulam, são absorvidas pelas instituições, reinterpretadas por movimentos sociais e multiplicadas pelos meios de comunicação.
As redes sociais potencializaram extraordinariamente esse fenômeno.
Hoje, uma ideia pode atravessar países, escolas, universidades e comunidades em poucas horas. Influenciadores, artistas, jornalistas, professores, empresas, organizações religiosas e movimentos políticos disputam diariamente a atenção e a interpretação dos cidadãos.
Quem forma o imaginário social?
Durante muito tempo, uma das principais perguntas da política foi: quem governa?
Ela continua sendo fundamental, mas já não é suficiente.
Outras perguntas ganharam importância:
Quem forma os professores? Quem define os conteúdos educacionais? Quem influencia as escolas? Quem produz os filmes, livros e programas que consumimos? Quem estabelece os limites do debate público? Quem determina quais valores serão considerados modernos e quais serão tratados como ultrapassados?
Essas perguntas não pertencem exclusivamente à direita ou à esquerda.
Qualquer força política pode buscar influência cultural.
Conservadores, progressistas, liberais, religiosos, empresas, movimentos sociais e partidos procuram construir suas próprias referências e influenciar a sociedade.
A própria ideia de hegemonia ajuda a compreender isso: a disputa pelo poder não ocorre somente dentro do Estado. Ela ocorre também na sociedade.
Quando uma visão deixa de parecer política
Talvez o ponto mais interessante esteja exatamente aqui.
Quando determinadas ideias passam a dominar grande parte das instituições responsáveis pela produção e transmissão de valores, elas podem deixar de ser percebidas como posições políticas.
Passam a parecer simplesmente naturais.
Uma transformação cultural bem-sucedida não precisa necessariamente apresentar-se como revolução. Pode ocorrer gradualmente, mediante mudanças na linguagem, nos costumes, nas referências e nas formas de interpretar a realidade.
A política contemporânea, portanto, ultrapassou há muito tempo a fábrica, o Parlamento e o governo.
Está na escola, na universidade, na televisão, nas redes sociais, na arte, na religião, na linguagem e nos hábitos cotidianos.
Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes de Gramsci para a compreensão do presente: perceber que o poder não depende apenas de quem governa, mas também de quem consegue influenciar a maneira pela qual a sociedade compreende o mundo.
Por isso, numa democracia, não basta perguntar quem governa.
É igualmente necessário perguntar: quem está formando a maneira pela qual pensamos e, somos capazes de perceber essa influência?