Os cinco níveis de consciência

Da confiança inicial à escolha entre aderir e preservar a própria coerência

Há momentos em nossa vida que percebemos que a realidade não é exatamente aquilo que aparenta ser. Isso ocorre nas relações pessoais, nas organizações, no ambiente profissional e, de maneira ainda mais evidente, nos espaços em que interesses, poder e decisões se encontram.

Essa percepção raramente surge de uma vez. Na maior parte das vezes, é construída aos poucos, pela experiência, pela observação e pela repetição de fatos que passam a desafiar as explicações mais simples.

Quanto maior a capacidade de observar, comparar e julgar com independência, mais difícil se torna permanecer apenas na superfície dos acontecimentos.

Talvez esse processo possa ser compreendido em cinco níveis.

Nível 1 — A realidade é aquilo que nos apresentam

No primeiro nível, aceitamos naturalmente as explicações que recebemos.

As instituições funcionam segundo suas normas, as decisões decorrem dos critérios anunciados e as pessoas dizem aquilo que efetivamente pensam.

Não há necessariamente ingenuidade nisso. Há confiança.

Precisamos partir de algum ponto para compreender o mundo e, normalmente, começamos supondo que exista razoável coerência entre aquilo que está escrito, aquilo que é dito e aquilo que efetivamente acontece.

Enquanto os fatos confirmam essa percepção, não há razão para questioná-la.

O problema começa quando alguns acontecimentos deixam de caber nessa explicação.

Nível 2 — Surgem as primeiras contradições

Com o tempo, aparecem inconsistências.

Decisões semelhantes recebem tratamentos diferentes. Argumentos utilizados em determinado momento são abandonados quando deixam de ser convenientes. Regras aparentemente objetivas passam a admitir interpretações distintas.

Ainda assim, procuramos explicações racionais.

Talvez falte alguma informação. Talvez exista uma circunstância que desconhecemos. Talvez a decisão possua algum fundamento que ainda não conseguimos identificar.

Essa reação é natural. Preferimos acreditar que existe coerência por trás dos acontecimentos.

Mas, quando as exceções se repetem, deixam de ser exceções.

É nesse ponto que nossa percepção começa a mudar.

Nível 3 — As regras formais não explicam tudo

Passamos então a observar não apenas as decisões, mas também os interesses, os incentivos, as relações e as consequências.

Descobrimos que toda organização possui uma estrutura formal e outra informal.

A formal aparece nos organogramas, regulamentos, normas, competências e procedimentos.

A informal é formada por relações de confiança, influência, conveniência, dependência, alianças e mecanismos de poder.

Isso não significa que toda instituição funcione de maneira inadequada. Significa apenas reconhecer que nenhuma organização é formada exclusivamente por normas. Ela é formada por pessoas.

E pessoas possuem interesses, convicções, ambições, receios e objetivos próprios.

A partir daí uma decisão deixa de ser analisada apenas pela justificativa apresentada. Passamos também a observar quem decide, quem ganha, quem perde e quais interesses ajudam a explicar o resultado.

É quando começamos a enxergar o sistema, e não apenas os fatos isolados.

Nível 4 — A consciência plena de como as coisas acontecem

O quarto nível é mais difícil.

Não porque exista uma revelação extraordinária, mas porque a repetição dos fatos já não permite sustentar explicações confortáveis.

A diferença entre o funcionamento declarado de um ambiente e sua dinâmica real torna-se clara.

Já não se trata de suspeita.

Trata-se de reconhecer padrões.

Percebemos que algumas justificativas podem ser construídas depois das decisões. Que determinadas regras podem ser aplicadas com maior rigor para alguns e maior flexibilidade para outros. Que a competência técnica nem sempre é o fator predominante. E que relações de confiança, conveniência ou interesse podem exercer influência maior do que aquilo que aparece formalmente.

Nesse estágio ocorre uma transformação importante.

Depois que certos mecanismos se tornam visíveis, torna-se difícil voltar a ignorá-los.

Podemos discordar, tentar modificar procedimentos, fortalecer controles, defender critérios objetivos e insistir em decisões tecnicamente fundamentadas.

Mas já não conseguimos alegar desconhecimento.

A consciência muda a posição de quem observa.

E passa também a exigir responsabilidade sobre as próprias escolhas.

Nível 5 — A consciência exige uma escolha

No quinto nível, a compreensão deixa de ser apenas intelectual e profissional e, passa a exigir uma posição pessoal.

Já não é possível atribuir tudo ao acaso, à desorganização ou à falta de informação.

Os padrões estão identificados. As normas continuam existindo, mas agora também se conhece o peso das regras não escritas.

Em determinados ambientes, compreender não é suficiente. Espera-se algum grau de adaptação. 

Essa adaptação raramente é explícita. Muitas vezes começa de maneira sutil: silenciar diante de determinadas situações, flexibilizar convicções, aceitar procedimentos com os quais não se concorda, evitar questionamentos ou ajustar-se às expectativas daqueles que efetivamente exercem influência.

Enquanto isso não entra em conflito com princípios pessoais, talvez seja possível permanecer.

O problema surge quando permanecer passa a exigir aquilo que a consciência recomenda não fazer.

Nesse momento, as alternativas se estreitam.

Aderir significa continuar pertencendo ao ambiente, aceitando progressivamente sua lógica de funcionamento.

Não aderir pode significar perder espaço, ser afastado ou simplesmente constatar que já não existe compatibilidade entre a pessoa e aquele sistema.

Mas há uma diferença fundamental entre ser afastado e decidir não permanecer.

Nem todo afastamento representa fracasso. E nem toda permanência representa êxito.

Há situações em que continuar ocupando determinado espaço exige concessões sucessivas: primeiro o silêncio, depois a tolerância, em seguida a adaptação e, por fim, a aceitação de práticas que entram em conflito com aquilo em que se acredita.

É nesse ponto que a consciência deixa de apenas revelar a realidade e passa a exigir uma decisão.

Quando permanecer significa afastar-se dos próprios princípios, do caráter, dos valores ou dos propósitos construídos ao longo de uma vida, buscar outro caminho pode deixar de ser uma alternativa e se transformar na escolha mais coerente.

Essa decisão, porém, raramente é simples.

Não se deixa apenas um cargo, uma posição ou uma oportunidade.

Deixam-se também colegas com quem foram construídas relações de confiança, equipes que ajudamos a formar, projetos aos quais dedicamos tempo e pessoas com quem compartilhamos responsabilidades, dificuldades e conquistas.

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da escolha.

Porque não se abandona necessariamente aquilo que foi construído. Muitas vezes, abandona-se apenas a possibilidade de continuar participando daquilo sem ultrapassar limites que a própria consciência já não permite ignorar.

Chega um momento em que determinadas posições somente podem ser mantidas ao preço de ultrapassar limites estabelecidos ao longo de uma trajetória.

Nesse estágio, seguir outro caminho deixa de significar desistência.

Pode significar coerência.

Pode significar reconhecer que determinados ciclos se encerram não porque perderam importância, mas porque continuar neles passou a exigir um preço incompatível com aquilo que se deseja preservar.

O quinto nível, portanto, não consiste apenas em enxergar plenamente a realidade.

Consiste em compreender também até onde estamos dispostos a acompanhá-la.

Há situações em que permanecer exige adesão.

E, quando essa adesão ultrapassa determinados limites, a decisão mais importante talvez não seja resistir indefinidamente nem esperar pelo afastamento.

Pode ser escolher partir e construir um novo caminho, mesmo sabendo que essa escolha significa deixar pessoas, projetos e uma parte importante da própria trajetória.

Caminhos podem ser reconstruídos. Novos projetos podem nascer.

Mas a coerência consigo mesmo, quando abandonada sucessivamente em nome da permanência, pode ser muito mais difícil de recuperar.