A dificuldade de interpretação, a falsa equivalência e um dos efeitos menos visíveis da baixa qualidade da educação
Em artigo recente, “O que o Inaf revela sobre a Educação no Brasil: muito além dos números”, procurei mostrar que os resultados do Indicador de Alfabetismo Funcional — Inaf 2024 — revelam algo maior do que dificuldades de leitura e escrita. Eles expõem a distância entre as capacidades que o mundo contemporâneo exige e aquilo que a escola brasileira consegue efetivamente desenvolver.
Uma dessas capacidades é a interpretação.
Interpretar não significa apenas compreender um texto. Significa relacionar informações, distinguir fatos de opiniões, avaliar argumentos, identificar contradições, perceber relações de causa e consequência e formar conclusões a partir de evidências.
Por isso, os efeitos de uma educação insuficiente não permanecem dentro da escola. Aparecem no trabalho, na comunicação, nas relações sociais, no consumo de informações e também na forma como a sociedade compreende a política.
Nesse campo encontramos um exemplo bastante evidente.
Grande parte do debate político contemporâneo é construída por mensagens curtas, simplificações e comparações. Quando determinado fato é apresentado, muitas vezes a resposta não procura analisá-lo, mas imediatamente introduzir outro acontecimento na discussão.
Surge então a conhecida reação:
“E o outro?”
Um governante é acusado de determinada conduta e a resposta é lembrar que outro fez algo semelhante. Uma irregularidade é confrontada com outra. Uma decisão equivocada passa a justificar a seguinte.
O centro da discussão deixa de ser o fato apresentado. Em vez de perguntar o que aconteceu, pergunta-se quem também fez.
Essa forma de argumentação é frequentemente associada ao chamado whataboutism. Mas o problema relevante está na falsa equivalência: acontecimentos diferentes são colocados no mesmo plano, ignorando dimensão, intenção, circunstância, frequência e consequências.
Comparar é necessário. Muitas vezes, somente a comparação permite perceber incoerências ou tratamentos diferentes para situações semelhantes.
O problema começa quando a comparação substitui a análise.
Dois erros continuam sendo erros, mas não necessariamente possuem a mesma gravidade. Duas decisões inadequadas podem produzir consequências muito diferentes. Quando essas diferenças desaparecem, cria-se uma igualdade artificial.
Talvez nenhuma frase expresse melhor essa simplificação do que uma afirmação repetida há décadas:
“Todos os políticos são iguais.”
A frase parece explicar muita coisa sem precisar demonstrar quase nada.
A política, como qualquer atividade humana, reúne pessoas com capacidades, valores, comportamentos e resultados diferentes. Transformar toda essa diversidade em uma única conclusão significa substituir a análise pela generalização.
Mesmo assim, a frase funciona justamente porque é simples.
Uma realidade complexa exige informação, tempo e esforço para ser compreendida. A generalização oferece uma resposta pronta. Não é necessário conhecer os fatos, examinar circunstâncias ou avaliar consequências.
De tanto ser repetida, começa a adquirir aparência de verdade.
Um episódio passa a justificar outro. Diferentes acontecimentos são permanentemente apresentados como equivalentes. Aos poucos, os detalhes desaparecem e permanece apenas a impressão:
“Todos fazem a mesma coisa.”
É justamente nesse ponto que o problema educacional encontra o debate político.
Como procurei demonstrar no artigo anterior sobre o Inaf, a dificuldade de interpretação não termina quando alguém fecha um livro. Ela acompanha o indivíduo na leitura de uma notícia, de uma estatística, de uma mensagem recebida pelo celular, de um discurso ou de uma discussão pública.
Distinguir exige raciocínio.
É preciso verificar se os fatos são realmente comparáveis, compreender sua dimensão, examinar evidências e avaliar suas consequências. Também é necessário perceber quando uma comparação contribui para compreender determinado acontecimento e quando serve apenas para desviar a atenção.
Essa capacidade de interpretação precisa ser construída ao longo da formação educacional.
Naturalmente, seria incorreto atribuir todos os problemas do debate político à qualidade da educação. Pessoas altamente escolarizadas também podem analisar acontecimentos seletivamente quando interesses, preferências ou convicções anteriores interferem no julgamento.
Mas uma sociedade com dificuldades relevantes de interpretação torna-se mais vulnerável às simplificações.
As redes sociais potencializaram esse fenômeno. Uma frase curta, simples e emocional circula rapidamente. Explicar por que dois acontecimentos aparentemente semelhantes são diferentes exige informação e reflexão.
Existe, portanto, uma desigualdade entre a velocidade da simplificação e o esforço necessário para analisá-la.
“Todos fazem isso” cabe em poucas palavras.
Demonstrar se realmente todos fazem, de que maneira, em qual dimensão e com quais consequências exige muito mais.
Esse talvez seja um dos efeitos menos percebidos da baixa qualidade da educação.
Quando discutimos alfabetismo funcional, pensamos normalmente na capacidade de ler, escrever, fazer cálculos ou desempenhar determinadas atividades profissionais. Tudo isso é fundamental. Mas a formação educacional também prepara o indivíduo para compreender a sociedade.
E uma democracia não depende apenas da possibilidade de votar. Depende também da capacidade de avaliar.
Se todos forem percebidos como iguais, deixa de fazer sentido distinguir comportamentos, competências e resultados. Se qualquer erro pode ser neutralizado pela lembrança de outro erro, a responsabilidade individual perde importância.
A consequência pode ser a descrença generalizada.
O cidadão deixa de acompanhar, comparar e cobrar porque conclui previamente que nada fará diferença.
Por isso, os resultados do Inaf precisam ser compreendidos muito além dos números.
Eles ajudam a revelar como as limitações da educação alcançam diferentes dimensões da vida social. Em uma sociedade submetida diariamente a um volume extraordinário de informações, uma das capacidades mais importantes talvez seja justamente saber distinguir.
Porque interpretar não é apenas compreender aquilo que alguém diz.
É também saber quando duas coisas realmente são iguais e, principalmente, quando não são.