O estudo do Inaf 2024 mede alfabetismo funcional, mas expõe algo maior: a distância entre as capacidades que o mundo contemporâneo exige e aquilo que a escola consegue efetivamente desenvolver
Em 1989, José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli publicaram, pela Editora Ática, Para Entender o Texto: Leitura e Redação. O livro fez parte da minha formação acadêmica e deixou uma lição que permanece comigo: ler não é simplesmente reconhecer palavras; é compreender e interpretar aquilo que se lê.
A obra exigia atenção ao significado, à relação entre ideias, à estrutura do argumento, ao que estava dito e ao que precisava ser inferido. Não bastava chegar ao fim da página. Era preciso entender o texto.
Décadas depois, os resultados do Indicador de Alfabetismo Funcional — Inaf 2024 me fizeram lembrar daquele aprendizado.
E talvez essa lembrança ajude a perceber que os resultados do Inaf significam muito mais do que os números apresentados.
O que existe por trás dos 29%
Segundo o Inaf, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos encontram-se nos níveis de analfabetismo funcional: 7% no nível analfabeto e 22% no rudimentar. Outros 36% estão no nível elementar. Apenas 25% alcançam o nível intermediário e 10%, o proficiente.
O próprio Inaf define alfabetismo funcional pela capacidade de compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais em situações do cotidiano. Sua metodologia avalia habilidades como localizar informações, compreender, inferir, avaliar e refletir.
É aí que os percentuais deixam de ser apenas estatísticas educacionais.
Estamos falando da capacidade de compreender uma orientação, interpretar um contrato, analisar uma tabela, explicar um problema, formular uma solicitação, comparar alternativas, avaliar argumentos e utilizar informações para tomar decisões.
Isso afeta o trabalho, a cidadania, a administração pública, os negócios e a vida cotidiana.
O Inaf mede alfabetismo funcional. Mas seus resultados dizem muito sobre capital humano e capacidade de desenvolvimento.
A escola e o mundo parecem caminhar em velocidades diferentes
O resultado talvez revele uma questão ainda mais inquietante: a distância entre aquilo que o mundo contemporâneo exige e aquilo que nosso sistema educacional consegue efetivamente desenvolver em parcela importante da população.
O mundo do trabalho exige cada vez mais compreensão, adaptação, capacidade de resolver problemas, comunicação, uso de tecnologia e aprendizado permanente.
A escola, entretanto, ainda enfrenta dificuldades para garantir competências anteriores a todas essas: leitura com compreensão, interpretação, raciocínio e expressão.
E há outro sinal importante. O próprio Inaf informa que, depois de avanços relevantes entre 2001 e 2009, houve relativa estagnação dos níveis de alfabetismo nos últimos quinze anos, apesar da melhoria da escolaridade formal da população.
Essa constatação obriga a separar duas coisas que costumamos tratar como equivalentes:
escolarização não é necessariamente aprendizagem.
Durante décadas acompanhamos matrículas, anos de estudo, aprovação e diplomas. São indicadores importantes. Mas existe uma pergunta mais difícil: o que a pessoa efetivamente consegue fazer com aquilo que aprendeu?
É como avaliar um hospital apenas pelo número de pacientes atendidos, sem verificar os resultados do tratamento.
Um problema de desenvolvimento
Essa discussão interessa diretamente à economia.
Uma empresa pode adquirir equipamentos modernos, softwares sofisticados e sistemas de inteligência artificial. Mas alguém precisará compreender o problema, utilizar corretamente a ferramenta, interpretar os resultados e decidir o que fazer.
A tecnologia não substitui essa capacidade humana.
Estudo da OCDE com dados internacionais de competências de adultos encontrou relação positiva entre o nível médio de habilidades e a produtividade do trabalho; as diferenças de competências ajudam a explicar parcela relevante das diferenças de produtividade entre países e setores.
Portanto, alfabetismo funcional não deveria ser tratado apenas como assunto da educação.
É também questão de produtividade, empregabilidade, inovação e crescimento econômico.
Educação de qualidade é infraestrutura. Não aparece como uma ponte ou uma estrada, mas determina a capacidade de uma sociedade utilizar todas as outras infraestruturas.
Compreender para comunicar
Há ainda uma dimensão pouco percebida. Quem compreende melhor tende a conseguir comunicar melhor.
Comunicar não significa apenas escrever corretamente. Significa explicar uma ideia, fazer uma pergunta, descrever um problema, formular uma solicitação, estabelecer condições e apresentar argumentos de forma compreensível.
Isso sempre foi importante.
Com a inteligência artificial, tornou-se imprescindível.
Nunca foi tão fácil obter respostas. Mas talvez nunca tenha sido tão importante saber formular perguntas.
Uma ferramenta de IA pode produzir textos, cálculos, análises e sínteses em segundos. Porém alguém precisa dizer claramente o que deseja, oferecer contexto, estabelecer critérios e, depois, avaliar se a resposta recebida faz sentido.
O tão comentado prompt é, em grande medida, uma antiga competência vestida com roupa tecnológica: saber formular uma instrução.
Para isso, é preciso compreender antes de comunicar.
E, depois de receber a resposta, interpretar novamente.
A sequência passa a ser:
ler → compreender → interpretar → comunicar → perguntar → avaliar → decidir.
A tecnologia tornou a interpretação ainda mais importante
Pode parecer que a inteligência artificial reduzirá a necessidade de leitura e interpretação.
Acredito exatamente no contrário.
Quanto mais capazes as máquinas se tornarem de produzir respostas convincentes, mais importante será nossa capacidade de avaliar essas respostas.
Uma informação pode estar errada. Uma análise pode partir de premissa equivocada. Um texto pode parecer excelente e conduzir a uma conclusão inadequada.
É como possuir uma calculadora extraordinariamente poderosa sem conseguir perceber que o resultado apresentado é absurdo.
A máquina calcula.
Alguém ainda precisa pensar.
Muito além dos números
Por isso considero que a principal contribuição do Inaf talvez não esteja simplesmente em revelar que 29% da população se encontra no analfabetismo funcional ou que apenas 10% alcança o nível proficiente.
O estudo revela algo maior.
Mostra a distância entre a escolaridade que oferecemos e as capacidades que o mundo já exige.
Volto, então, ao livro de 1989.
Para Entender o Texto ensinava que a leitura precisava produzir compreensão. Quase quatro décadas depois, essa competência tornou-se ainda mais valiosa.
Hoje precisamos interpretar textos, números, dados, argumentos, imagens e respostas produzidas por máquinas.
Por isso, o desenvolvimento não começa na inteligência artificial.
Começa muito antes. Começa na capacidade de compreender.
E talvez seja essa a mensagem mais importante do Inaf: enquanto o mundo aumenta exponencialmente sua capacidade de produzir informação, o Brasil ainda precisa assegurar a milhões de pessoas algo muito mais elementar, a capacidade de transformá-la em conhecimento, comunicação e decisão.
Fontes:
Inaf — Indicador de Alfabetismo Funcional, edição 2024. Site oficial do Inaf
Fiorin, José Luiz; Savioli, Francisco Platão. Para Entender o Texto: Leitura e Redação, Editora Ática, 1989. Registro no Repositório da USP—
Adult Skills and Productivity OCDE: New Evidence from PIAAC 2023, 2025. Estudo da OCDE